Quando somos novatos , e isso vale para minha época de início em 1983 até os dias de hoje , o desejo de fazer tudo perfeitamente e o medo de cometer um deslize regulatório são gigantescos. Lemos a legislação de ponta a ponta e, ao nos depararmos com artigos rígidos como o Artigo 12.5 do Ato 3448 da ANATEL (que proíbe terminantemente a alteração ou descaracterização do indicativo outorgado), a mente do iniciante faz uma associação ultra-defensiva:

"Se o Artigo 12 diz que eu não posso alterar meu indicativo de jeito nenhum, e a ANATEL não cita expressamente o /M ou /P na lei atual... será que se eu falar,transmitir em telegrafia, colocar em meu cartão QSL, ter no LoTW 'PV8DX barra portátil' ou 'PV8DX barra móvel' eu estou cometendo uma infração e alterando meu indicativo ilegalmente?"

É exatamente aí que nasce a cisma! O novato, na ânsia de cumprir a lei ao pé da letra, acaba confundindo modificadores operacionais de status - uma condição temporária (que são de praxe internacional) com alteração ilegal de indicativo.

O que o Artigo 12.5 realmente quer proteger (e o que o novato teme)

Para quem está começando, vale a pena desmistificar esse receio

     O que a ANATEL proíbe (Art. 12.5): O que a agência não permite é que você invente um indicativo que não é seu, mude a ordem das letras e números (como usar DX8PV em vez de PV8DX), ou use sufixos permanentes que finjam ser uma licença especial ou de outra categoria sem autorização. Isso sim descaracteriza a identidade jurídica da estação.

     O que a praxe do /M ou /P faz e em alguns paises está na Legislação: Adicionar a barra de forma temporária para indicar a condição física da operação (móvel ou portátil) não altera a raiz da sua identidade. O seu indicativo continua sendo o outorgado, apenas com um descritor de estado físico.

 

Ler a legislação minuciosamente para não errar é o que define o verdadeiro espírito do radioamadorismo técnico e consciente. É muito melhor ter um novato que questiona o uso do /M e do /P por excesso de zelo e respeito à lei do que aquele que opera de qualquer jeito sem nem saber que existe uma regulamentação.

Essa "cisma" é, na verdade, uma excelente oportunidade de mentoria. Quando um novato trouxer esse questionamento com base no Artigo 12.5, a melhor resposta do colega mais experiente é acolher essa preocupação:

"Que bom que você leu o Artigo 12.5 e tem esse cuidado! Mas fique tranquilo: a barra móvel ou portátil é apenas um aviso de como você está operando, não uma mudança do seu indicativo oficial perante a ANATEL."

A "Interpolação por Prática Internacional"

As agências conversam e se espelham. O corpo técnico da ANATEL participa ativamente das conferências da ITU (União Internacional de Telecomunicações) e da CITEL (Comissão Interamericana de Telecomunicações). Eles sabem perfeitamente como o mundo radioamadorístico funciona. Mas, evidente que cada Agência é livre para legislar.

     Detalhes operacionais do dia a dia, que não causam prejuízo técnico ao espectro e que já são regulados pela própria ética e tradição da comunidade (como o /M e o /P), foram deliberadamente deixados fora do texto para não inflar a máquina pública com fiscalizações inúteis.

Se a ANATEL quisesse proibir uma prática que o mundo inteiro usa há 100 anos, ela de forma consciente teria que ter proibido explicitamente. O fato de ela não proibir e manter o Artigo 12.5 focado apenas em evitar que você esconda ou adultere sua real identidade prova que ela comunga da mesma visão internacional: o indicativo base está protegido, e a barra operacional é apenas o radioamadorismo operando em sua plenitude global.

 

Verão a seguir que, longe de infringir qualquer regra, essa é uma prática internacional de alta relevância técnica e operacional, reconhecida mundialmente pela IARU e essencial para a nossa eficiência no éter. Segue a leitura para quem quiser entender melhor o porquê dessa dinâmica!"

Justificativa Técnica e Operacional de

Paulo PV8DX
O Uso da Barra (/) no Radioamadorismo

A utilização de informações complementares separadas por barra (/) — seja um prefixo regional antes do indicativo (como PY2/PV8DX) ou um sufixo operacional após ele (como /P, /M, /MM ou /QRP) — é uma prática consagrada mundialmente. Trata-se de uma conduta de caráter estritamente técnico, informativo e de segurança operacional.

"12.5. A cada estação é atribuído um indicativo de chamada unívoco e distinto, vedados supressões ou acréscimos de qualquer natureza na licença de estação."

O uso da barra operacional, no entanto, situa-se em um plano puramente informativo e circunstancial, pelas seguintes razões:

1.    O indicativo original permanece intacto: Quando o operador transmite como PY2/PV8DX ou PV8DX/P, o indicativo unívoco e distinto atribuído pela ANATEL (PV8DX) está integralmente presente, sem qualquer supressão.

2.    Não há alteração na licença: O uso da barra não é um "acréscimo na licença de estação" (o documento oficial emitido pela agência), mas sim uma sinalização operacional temporária usada no éter para descrever uma condição momentânea de transmissão.

3.    Função de separador claro: Para quem recebe e para os sistemas de monitoramento, a barra (/) cumpre justamente o papel de avisar: "o que vem antes (ou depois) da barra não faz parte do meu indicativo oficial; é apenas a minha condição de operação neste exato momento". Servirá até para uma fiscalização efetiva.

  1. Olhando pelo lado prático, o uso do /P (portátil) ou /M (móvel) funciona até como um facilitador para a própria fiscalização. Imagine que eu esteja operando longe do meu QTH fixo e, por alguma razão técnica, o meu sinal cause uma interferência local em um bairro distante de minha estação fixa. Se um agente fiscalizador cruzar os dados e verificar o endereço da minha outorga, ele saberá imediatamente que aquela emissão veio de uma estrutura itinerante, e não da minha base. O sufixo operacional elimina a dúvida jurídica e ajuda o órgão regulador a entender o cenário real da transmissão, comprovando que o operador está agindo com transparência no éter.

Motivos Técnicos e Práticos que Tornam a Barra Indispensável:

1. Dinâmica de Operação: Prefixo Regional vs. Grid Locator

Embora o Grid Locator (localizador de quadrícula) seja uma ferramenta fantástica, ele não é dinâmico para a identificação imediata durante o QSO.

     Ao ouvir apenas um indicativo puro e um Grid, o operador do outro lado é obrigado a interromper sua operação para buscar e decodificar essa informação em um mapa externo para entender de onde o sinal vem.

     O uso do prefixo do estado com a barra (ex: PY2/) elimina essa barreira de forma instantânea. O operador sabe na hora, apenas de ouvido, para onde apontar sua antena Yagi para obter o melhor rendimento e ganho de sinal.

2. Mobilidade e Estações Temporárias (/P, /M e /MM)

A barra é a ferramenta que viabiliza a operação fora da estação base homologada com total transparência para a comunidade:

     Operação Portátil (/P): O sufixo /P é indispensável para informar que o operador está temporariamente fora de seu domicílio ou de sua estação fixa cadastrada (operando em um parque, acampamento, praia ou local provisório). Isso alerta os colegas de que a estação pode estar usando antenas improvisadas ou fontes de energia limitadas (baterias), além de explicar a mudança geográfica nas confirmações de contato.

     Operação Móvel (/M): Utilizado para indicar que o operador está em movimento (em um veículo terrestre ou embarcação /MM). Em telegrafia (CW), ninguém transmitirá a palavra "MÓVEL" por extenso; o sufixo /M ou /MM (Móvel Marítimo) é o padrão universal que economiza tempo e avisa aos demais que o colega está em trânsito, o que exige maior atenção à segurança e à instabilidade do sinal.

 

 

3. Eficiência Operacional e Prioridade de Tráfego (/QRP)

A barra também sinaliza as condições de potência da estação de forma rápida:

     Ao utilizar o sufixo /QRP (baixa potência, geralmente até 5 Watts), o operador informa instantaneamente a sua condição limitada de transmissão.

     No radioamadorismo, estações operando em QRP frequentemente recebem prioridade de escuta e atendimento pelos colegas, uma cortesia técnica que só é viabilizada pela clareza imediata que a barra proporciona no indicativo.

4. Direcionamento de Antena e Propagação Real

Em frequências sensíveis como os 50 MHz (6 metros), omitir a real localidade de transmissão gera relatórios falsos. Sem o prefixo correto na barra, os operadores registrarão contatos achando que a propagação abriu de forma inédita para uma região distante, quando na verdade o operador estava transmitindo de uma localidade vizinha. A barra protege a precisão científica dos nossos registros (logbooks).
Imaginem um contato de PV8DX via satélite eu estando em PY3. Sem saber o GRID em um contato em telegrafia principalmente. Um contato com LU ou VP8 poderia trazer tremenda confusão aos operadores. Como Roraima está a chegar em VP8, se não há cobertura do SAT?

O Bom Senso Operacional: Quando NÃO usar a Barra (O caso dos Pile-ups)

Apesar de ser uma prática altamente recomendada, o uso da barra exige bom senso e leitura de cenário.

     Em grandes expedições DX ou Pile-ups intensos, onde centenas de estações estão chamando uma única estação rara ao mesmo tempo, NÃO é recomendado acrescentar caracteres adicionais (como /P, /M ou /QRP).

     Nessas situações, a estação DX geralmente opera em condições precárias de recepção, lidando às vezes com forte ruído (QRN) e (QRM). Aumentar o tamanho de caracteres apenas gera mais trabalho para o operador distante e atrasa o ritmo dos contatos. Nesses momentos específicos, a brevidade e a clareza do indicativo limpo devem prevalecer.

Respeito às Normas Globais (IARU e CEPT)

A nível internacional, essa prática é regulamentada e exigida pelas maiores entidades de telecomunicações do planeta:

     CEPT (Europa): Por meio da recomendação T/R 61-01, exige por lei que operadores em trânsito internacional utilizem o prefixo do país visitado seguido de barra (ex: PA2MIL/M) e determina o uso de /P e /M para segurança e controle de tráfego.
https://docdb.cept.org/download/4541

     IARU (União Internacional de Radioamadores): Em seu guia global de ética e procedimentos operacionais, faz menção ao uso dos sufixos de barra e faz alerta sobre alguns países que não permitem

https://www.la1b.no/wp-content/uploads/2025/06/IARU-Ethics-and-Operating-Procedures-for-the-Radio-Amateur-4th-Ed-v4.0.25_A.pdf

 

 

 

 

 

 

A Legitimidade Operacional da Barra no Radioamadorismo

     Respeito à Diversidade de Interpretações: Minha análise e justificativa neste texto não visa impor regras, mas defender o radioamadorismo como um espaço de livre aprendizado, evolução e respeito mútuo.

     O Silêncio Regulatório não é Proibição: Diante do argumento de que a lei não prevê expressamente o uso da barra (/), rebate-se que a legislação também não a proíbe. A prática é centenária, legítima e anterior às normas atuais, visando apenas a exatidão técnica e a eficiência.

     Origem da Interpretação Equivocada: Talvez essa interpretação meio sem sentido passe pelo fato de que, recentemente, a ANATEL aprontou um dos atos mais controversos da história: a criação de dois indicativos para os radioamadores brasileiros, algo sem precedentes no mundo. Não faz sentido focar forças em uma barra informativa inofensiva enquanto se convive com uma distorção regulatória tão severa. Fomentar a barra como ilegal é, ironicamente, "forçar a barra".

Como operador assíduo há mais de 40 anos, reforço meu orgulho em praticar e defender essa dinâmica recomendada internacionalmente, enxergando nela uma oportunidade de guiar os novatos pelo bom exemplo.

Veja abaixo os principais países que recomendam ou obrigam

 

CEPT - Conferência Europeia de Administrações de Correios e Telecomunicações (CEPT)
RADIO AMATEUR LICENCE (T/R 61-01)
https://docdb.cept.org/download/2ae38a89-e58a/TR6101.pdf

Quando transmitir no país visitado, o titular da licença deve utilizar seu indicativo de chamada nacional precedido pelo prefixo do indicativo de chamada do país visitado, conforme indicado nos Anexos 2 e 4. O prefixo do indicativo de chamada e o indicativo de chamada nacional devem ser separados pelo caractere “/” (telegrafia) ou pela palavra “stroke” (telefonia).

Estados Unidos e mais 50 países recomendam esta prática antiga e eficiente.

 

 

LoTW

On the ARRL Logbook of The World (LoTW) System, you must separate your prefix and national call sign with the "/" character. Do not use words like "stroke" or any other formatting. Ensure that your LoTW Certificate matches this exact <PREFIX>/<CALLSIGN> structure to successfully submit your logs. [1, 2, 3, 4]



ARRL

"...each indicator must be separated from the call sign by a slant bar (or, in voice communication, by anysuitable word” that denotes the slant bar, such as “stroke”)."


Tradução: "...cada indicador deve ser separado do indicativo por uma barra inclinada (ou, em comunicação de voz, por qualquer “palavra adequada” que denote a barra inclinada, tal como stroke”)." [
1]

https://www.arrl.org/special-event-call-signs

 

Uso de sufixos especiais de indicativos de chamada nos EUA

-

As regras da Parte 97 do Serviço de Rádio Amador da FCC permitem que os radioamadores licenciados nos EUA, conforme a Seção 97.119(c), “adicionem ao seu indicativo de chamada emitido pela FCC (antes, depois ou em ambos os casos) um indicador especial de relevância, desde que não entre em conflito com um prefixo atribuído a outro país”. Um ou mais desses indicadores podem ser incluídos com o indicativo de chamada, e cada indicador deve ser separado do indicativo por uma barra inclinada (ou, em comunicação de voz, por qualquer “palavra adequada” que denote a barra inclinada, como “traço”). Os indicadores autoatribuídos podem ser incluídos antes, depois ou em ambos os casos, antes e depois do indicativo de chamada atribuído pela FCC. Nenhum indicador autoatribuído pode entrar em conflito com qualquer outro indicador especificado pelas regras da FCC ou com qualquer prefixo atribuído a outro país.

 

 

Dizer "CQ de Victor Romeo Two Oscar Portable" não é muito claro. Ou o VR2OP chama CQ usando uma soletração fonética incorreta, ou o VR2O/p chama CQ e omite a palavra "stroke" durante a chamada. Isso pode gerar muita confusão. Use sempre o termo "stroke" quando estiver operando em modo portátil, móvel, etc.
https://www.arrl.org/files/file/DXCC/Eth-operating-EN-ARRL-CORR-JAN-2011.pdf

 

 

 

 

 

DARC - ALEMANHA

https://50ohm.de/N_rufzeichenzusaetze.html

Ofcom (órgão regulador britânico) e pela

RSGB (Radio Society of Great Britain)

https://www.ofcom.org.uk/siteassets/resources/documents/manage-your-licence/amateur/amateur_radio_licence_guidance_for_licensees.pdf?v=405585

Liberdade de Sufixos: A Ofcom determinou que você pode adicionar qualquer sufixo após a barra (/), desde que o indicativo principal continue legível. Você pode usar /P, /M, /MM (móvel marítimo) ou /A (endereço alternativo) de forma voluntária. A RSGB recomenda o uso em operações de campo comuns (como SOTA e POTA) puramente por uma questão de cortesia operacional, indicando o tipo de estação para os correspondentes
Um 'sufixo' é um grupo de uma ou mais letras adicionadas ao final de um indicativo de chamada após a 'barra' ('/') . Normalmente são usados ​​para indicar que a estação não está em sua estação principal de endereço. Exemplos de sufixos que podem ser usados para indicar uma localização alternativa são ‘/A’, ‘/M’,‘/MM’, ‘/P’, ‘/AM’.

Qualquer sufixo, após o símbolo de 'barra' ('/') pode ser adicionado ao indicativo transmitido, desde que o estação permanece identificável. Os sufixos não são obrigatórios ou referenciados na licença de radioamador, uma vez que não fazem parte do indicativo de chamada «principal» e não são necessários para a gestão do espectro de rádio.

Na SRR - FEDERAÇÃO RÚSSIA TEM FORMA OBRIGATÓRIA
https://srr.ru/radiooperatoram/pravila-radioobmena/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ESPANHA - URE
https://www.boe.es/buscar/act.php?id=BOE-A-2013-7624

Portátil Móvel; Marítimo

FCC (Estados Unidos): Na regulamentação americana (Part 97), a inclusão de /M ou /P na fonia ou no CW é permitida e incentivada para clareza operacional, mas a FCC enfatiza que o operador deve dar o indicativo base de forma clara e legível. Modificar ou omitir a raiz em prol do sufixo é considerado infração por "identificação inadequada".
 
Legislações Europeias (CEPT): Na Europa, o rigor com o /P é ainda maior por conta das fronteiras terrestres próximas. Se você cruza uma fronteira e opera portátil, a legislação exige que você combine as regras: Prefixo do País Visitado / Seu Indicativo / P.
Por que PV8DX não fará diferente
"Por todo o exposto, este operador — PV8DX — não tem como agir de outra forma. Fui forjado no éter e, como bem diz o ditado popular, 'o cachimbo entorta a boca'. Minha conduta operacional foi lapidada por mais de 40 anos de prática diária, respeito aos colegas e amor ao radioamadorismo.
 
Peço apenas que não me atirem pedras rsrsrs. Para que eu mude a minha postura e comece a agir diferente, a ANATEL terá que escrever expressamente em sua norma que o uso da barra é proibido. Até lá, a barra continua sendo a minha assinatura de clareza, transparência e respeito no éter.
 
E desde já os LOGs o qual envio para o LoTW segue a tradição internacional.
 
73 de Paulo, PV8DX.
A barra existe para que a fiscalização e a comunidade saibam: Quem está transmitindo (o indicativo oficial) e Onde/Como está transmitindo . Principalmente em modos como Telegrfafia
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